A compreensão das relações internacionais é um campo de estudo que evoluiu ao longo de décadas, refletindo as mudanças no cenário global, nas dinâmicas de poder e nas interpretações teóricas que buscam explicar o comportamento dos atores estatais e não estatais. Entre as várias correntes que compõem essa disciplina, a teoria realista destaca-se por sua abordagem pragmática, sua ênfase na luta pelo poder e na inevitabilidade do conflito em um sistema internacional marcado pela ausência de uma autoridade central superior. Esta perspectiva, enraizada na visão pessimista da natureza humana e na estrutura anárquica do sistema, oferece uma lente analítica que busca compreender a política mundial sob uma ótica de interesses nacionais e de segurança nacional, muitas vezes percebidos como fatores primordiais para explicar as ações dos estados.
As raízes históricas e filosóficas do realismo nas relações internacionais
O desenvolvimento do pensamento realista nas relações internacionais possui raízes profundas na história do pensamento político, remontando às reflexões de antigos filósofos e estrategistas, cuja análise da condição humana e das relações de poder influenciaram gerações subsequentes de teóricos. Tucídides, historiador grego do século V a.C., é frequentemente considerado um dos primeiros pensadores a abordar a natureza do conflito entre os Estados, ao narrar a Guerra do Peloponeso. Sua obra evidencia uma visão de mundo onde o poder e a sobrevivência são fatores centrais, e onde a guerra é uma consequência inevitável das relações humanas e políticas.
Maquiavel, no Renascimento, reforçou essa concepção ao defender uma abordagem pragmática e realista do poder, destacando a importância do fortalecimento do Estado e da manipulação das forças políticas para garantir a estabilidade e a sobrevivência do governante. Sua obra, “O Príncipe”, enfatiza a necessidade de ações estratégicas, muitas vezes imorais, para assegurar o domínio político, refletindo uma visão de mundo onde o poder é o objetivo supremo.
Já no século XX, o realismo moderno consolidou-se como uma teoria estruturada, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, que revelou as fragilidades do idealismo e das correntes que defendiam a cooperação internacional baseada em instituições e valores morais. Nesse período, pensadores como Hans Morgenthau, Thomas Schelling e Kenneth Waltz desenvolveram conceitos que buscavam explicar o comportamento dos Estados em um sistema internacional anárquico, onde a busca pelo poder e a segurança predominam de forma incontestável.
Princípios fundamentais do realismo
1. A anarquia do sistema internacional
O conceito de anarquia é central na teoria realista. Diferente de sistemas políticos domésticos, onde há uma autoridade central que regula as ações dos indivíduos e instituições, o sistema internacional é caracterizado pela ausência de uma autoridade superior que possa impor regras e garantir a ordem. Essa condição leva os Estados a operarem em um ambiente de autossuficiência, onde cada um busca garantir sua sobrevivência por meios próprios, muitas vezes através da força ou de alianças estratégicas.
Essa estrutura anárquica implica que os Estados não podem confiar plenamente uns nos outros, o que gera uma dinâmica de competição constante, onde a segurança de um Estado muitas vezes depende da capacidade de dissuadir ou derrotar possíveis adversários. A teoria realista, portanto, vê a guerra e o conflito como elementos inerentes ao sistema internacional, não como anomalias que podem ser eliminadas por instituições ou acordos.
2. A busca pelo poder
Para os realistas, o poder é o recurso fundamental que os Estados buscam maximizar. Essa busca pode manifestar-se de diversas formas, incluindo o aumento do poder militar, o fortalecimento econômico, a influência diplomática e o controle de recursos estratégicos. A acumulação de poder é vista como uma estratégia de sobrevivência, uma vez que um Estado forte é capaz de dissuadir ameaças externas e projetar sua influência no cenário global.
O conceito de poder relativo é especialmente importante na visão realista. Ou seja, o que importa não é apenas o poder absoluto de um Estado, mas sua posição em relação aos demais atores no sistema. Assim, a preocupação com o equilíbrio de poder – seja na forma de alianças ou de rivalidades – é um elemento constante na política internacional, influenciando decisões de governos e estratégias de nações.
3. Os interesses nacionais
Outro pilar do realismo é a ênfase nos interesses nacionais, que são considerados a força motriz das ações dos Estados. Esses interesses, sobretudo em relação à segurança e à sobrevivência, orientam as políticas externas e internas das nações. Os Estados, de acordo com essa perspectiva, atuam de forma racional, buscando maximizar seus benefícios e minimizar ameaças ou perdas, mesmo que essa racionalidade os leve a ações conflitantes ou agressivas.
Decisões de alianças, guerra, negociações diplomáticas e investimentos econômicos são todas moldadas por essa lógica de interesses. O realismo também reconhece que os interesses nacionais podem ser conflitantes, levando a ciclos de tensão, competição e, por vezes, conflito aberto.
4. A visão da natureza humana
O realismo sustenta uma visão pessimista da natureza humana, baseada na premissa de que os indivíduos e, por extensão, os Estados, são movidos por paixões, ambições e interesses pessoais. Essa perspectiva assume que a busca por poder, a ganância, a agressividade e a competição são características inerentes à condição humana, e que essas qualidades se refletem nas relações internacionais.
Por essa razão, o realismo acredita que a guerra, a rivalidade e o conflito são inevitáveis, uma vez que o sistema político internacional reproduz as mesmas tendências que se observam na esfera individual. Essa visão realista reforça a ideia de que a paz duradoura é difícil de alcançar, pois exige condições que muitas vezes estão em desacordo com a natureza humana.
As diferentes vertentes do realismo
1. O realismo clássico
O realismo clássico tem suas raízes em pensadores como Hans Morgenthau, cujo trabalho mais influente, “Politics Among Nations” (1948), estabeleceu os fundamentos da teoria. Morgenthau destacou a importância da natureza humana como motor do comportamento estatal, defendendo que a busca pelo poder é uma característica universal e perene.
Segundo Morgenthau, as paixões humanas, como o desejo de poder e a ambição, levam os Estados a agirem de forma a maximizar sua influência, muitas vezes à custa de outros. Essa visão afirma que a guerra é uma consequência inevitável dessa dinâmica, e que a política internacional é uma luta constante pela hegemonia e pela sobrevivência.
2. O neorrealismo ou realismo estrutural
Desenvolvido na década de 1970 por Kenneth Waltz, o neorrealismo concentra-se na estrutura do sistema internacional ao invés da natureza humana. Para Waltz, a anarquia e a distribuição de poder entre as grandes potências determinam o comportamento dos Estados.
O neorrealismo propõe que a configuração do sistema – seja de um sistema bipolar, multipolar ou unipolar – influencia as estratégias adotadas pelos atores. Assim, a dinâmica de equilíbrio de poder, a competição por hegemonia ou a busca por estabilidade são explicadas por fatores estruturais, e não por as ações de indivíduos ou elites.
3. O realismo ofensivo e o realismo defensivo
O realismo ofensivo, representado por John Mearsheimer, sustenta que os Estados tendem a buscar a maximização de seu poder e influência, muitas vezes adotando estratégias agressivas para garantir sua segurança. Acredita-se que a busca pelo domínio seja uma consequência natural da necessidade de dissuadir adversários e evitar a vulnerabilidade.
Por outro lado, o realismo defensivo, defendido por autores como Stephen Walt, argumenta que os Estados preferem manter o status quo e evitar conflitos desnecessários. Para essa vertente, a prioridade é a defesa e a preservação do poder existente, reconhecendo que ações agressivas podem gerar insegurança e instabilidade.
Críticas ao realismo: limitações e controvérsias
Apesar de sua influência e aplicabilidade, o realismo enfrenta críticas de diversos campos do pensamento político e internacional. Uma das principais objeções refere-se à sua visão excessivamente pessimista da natureza humana e à ênfase na guerra, que alguns autores consideram ser uma visão reducionista das possibilidades humanas de cooperação e construção de paz.
Especialistas argumentam que o realismo negligencia o papel das organizações internacionais, das instituições multilaterais e dos atores não estatais, que têm se mostrado capazes de influenciar significativamente o comportamento dos Estados. Além disso, a teoria é criticada por sua visão excessivamente centrada nos Estados, deixando de lado atores subnacionais, empresas transnacionais e movimentos sociais.
Outro ponto de crítica refere-se à sua incapacidade de explicar adequadamente contextos de cooperação internacional, como as ações em prol do desenvolvimento, a luta contra mudanças climáticas e os esforços diplomáticos que resultaram em acordos globais de grande escala.
O realismo na política internacional contemporânea
Apesar das críticas, o realismo permanece uma ferramenta analítica relevante para compreender o cenário atual das relações internacionais. Em um mundo marcado por tensões entre grandes potências, conflitos regionais e a emergência de atores não estatais, a perspectiva realista continua a fornecer insights valiosos.
1. A rivalidade entre Estados Unidos e China
A ascensão da China como potência global desafiadora da hegemonia estadunidense ilustra de forma clara a aplicação do realismo na análise contemporânea. A estratégia da China de expandir sua influência na Ásia, através de investimentos em infraestrutura, militarização do Mar do Sul da China e avanços tecnológicos, reflete uma busca por reestruturar o equilíbrio de poder internacional, na lógica do sistema descrito por Waltz.
Ao mesmo tempo, a resposta dos Estados Unidos, que inclui fortalecimento de alianças tradicionais, aumento do orçamento militar e ações diplomáticas na região, demonstra uma tentativa de manter sua influência e conter o avanço chinês, seguindo uma lógica de equilíbrio de poder defendida pelo realismo.
2. Conflitos regionais e segurança internacional
Os conflitos na Ucrânia, na Síria, no Oriente Médio e na Península Coreana exemplificam a dinâmica de busca por segurança e influência, muitas vezes conduzida por interesses estratégicos e econômicos. A análise realista explica esses conflitos como resultado da competição entre Estados por recursos, território e hegemonia regional, em uma lógica de sobrevivência e fortalecimento frente à incerteza do sistema internacional.
Perspectivas futuras e a evolução do realismo
Embora o cenário global esteja em constante transformação, o realismo, sobretudo na sua vertente estrutural, permanece relevante por sua capacidade de explicar as tendências de poder e conflito. No entanto, a disciplina também tem se adaptado às mudanças, incorporando aspectos de teoria liberal e construtivista, que enfatizam a importância da cooperação, das normas e das identidades na política internacional.
O debate sobre o papel das organizações multilaterais, a crescente influência de atores não estatais e a questão das mudanças climáticas, por exemplo, desafiam as premissas tradicionais do realismo, estimulando uma reflexão contínua sobre a evolução das teorias de relações internacionais.
Conclusão
A teoria realista permanece uma das abordagens mais influentes na análise das relações internacionais, oferecendo uma perspectiva que enfatiza a competição, o poder e a segurança. Sua compreensão é fundamental para interpretar as ações dos Estados em um sistema internacional caracterizado pela anarquia e pela busca constante por vantagem estratégica. Apesar das críticas e das mudanças no cenário global, o realismo continua a ser uma ferramenta essencial para compreender a dinâmica de poder, especialmente em momentos de crise, conflito e competição entre grandes potências.
Ao refletir sobre sua história, princípios e aplicações contemporâneas, é possível perceber que o realismo, com suas limitações e potencialidades, permanece uma abordagem indispensável para o entendimento do comportamento internacional, contribuindo para uma análise mais crítica e realista do mundo em que vivemos.

