O Valor do Jejum de Muharram e o Dia de Ashura
O mês de Muharram, o primeiro mês do calendário islâmico, ocupa uma posição de destaque na tradição muçulmana, não apenas como o início de um novo ano, mas também como um período de profundo significado espiritual e histórico. Dentro desse contexto, o dia de Ashura, que ocorre no décimo dia de Muharram, é particularmente relevante. Este dia tem sido celebrado e observado por muçulmanos de várias denominações com práticas de jejum e orações, e sua importância está enraizada tanto em eventos históricos significativos quanto em ensinamentos espirituais profundos.
Significado do Mês de Muharram
O mês de Muharram é considerado um dos quatro meses sagrados no Islã, conforme mencionado no Alcorão, em Surata At-Tawba (9:36). Durante esses meses, a guerra é proibida, e há uma ênfase maior na oração, reflexão e purificação espiritual. Muharram é, portanto, uma época para a renovação da fé, introspecção e arrependimento pelos erros cometidos, com o objetivo de aproximar-se de Allah.
O caráter sagrado de Muharram é reforçado pela história de Ashura, que, além de suas implicações espirituais, está intimamente ligada aos acontecimentos que marcaram a história do Islã.
O Jejum de Ashura: Uma Prática Tradicional
O jejum de Ashura é uma prática recomendada para todos os muçulmanos, sendo considerada uma forma de expiação e purificação. A tradição do jejum neste dia remonta aos tempos do profeta Muhammad, que, ao chegar a Madinah, encontrou os judeus locais jejuando neste dia, em comemoração à salvação dos filhos de Israel do Faraó, como narrado na história do profeta Moisés (Musa) no Alcorão. O profeta Muhammad, então, estabeleceu o jejum de Ashura para os muçulmanos como uma maneira de seguir essa prática de seus predecessores.
Contudo, com a revelação do jejum obrigatório durante o mês de Ramadã, o jejum de Ashura passou a ser considerado uma prática recomendada, mas não obrigatória. O hadith que descreve isso é claro em sua orientação:
“O jejum de Ashura é uma expiação para o ano passado.” (Sahih Muslim)
Essa declaração enfatiza que o jejum de Ashura serve como uma forma de purificação dos pecados cometidos no ano anterior, proporcionando aos muçulmanos uma oportunidade de arrependimento e renovação espiritual. Além disso, o jejum de Ashura também simboliza a gratidão pela misericórdia de Allah e uma oportunidade de reflexão sobre os eventos passados, tanto no contexto religioso quanto histórico.
A História de Ashura: Entre o Lamento e a Reflexão
Embora o jejum de Ashura tenha origens no judaísmo e tenha sido adotado pelo Islã, ele ganhou um significado adicional e profundo após os eventos trágicos da batalha de Karbala, em 61H (680 d.C.), que ocorreram no décimo dia de Muharram. Este evento, que resultou na morte do neto do profeta Muhammad, Husayn ibn Ali, é lembrado com grande pesar e reflexão pelos muçulmanos, especialmente pelos xiitas, que observam o dia de Ashura com rituais de lamento, incluindo recitações de elegias e atos de choro e lamentação.
Husayn e seus seguidores foram martirizados na batalha contra o exército do califa Yazid, após Husayn se recusar a jurar lealdade a um governo que ele considerava ilegítimo. A morte de Husayn simboliza a luta pela justiça, pela verdade e contra a opressão, e esses temas permanecem centrais nas observâncias de Ashura, tanto entre os muçulmanos xiitas quanto entre os sunitas.
Para os muçulmanos sunitas, embora o lamento e as cerimônias de luto não sejam uma prática comum, o dia de Ashura ainda é uma oportunidade para refletir sobre os sacrifícios de Husayn e a importância de lutar contra a injustiça e a tirania. Para os xiitas, o lamento por Husayn e seus seguidores é uma manifestação pública de solidariedade e uma lembrança da necessidade de manter vivos os princípios de justiça, coragem e resistir às forças da opressão, como exemplificado na tragédia de Karbala.
O Valor Espiritual do Jejum de Ashura
Além do seu significado histórico, o jejum de Ashura é visto como um meio de fortalecer a fé e aproximar-se de Allah. Segundo a tradição islâmica, este jejum tem a capacidade de expiar os pecados menores do ano passado, um benefício espiritual que torna este dia especialmente significativo para os muçulmanos.
É importante notar que, embora o jejum de Ashura seja recomendado, ele não é obrigatório. No entanto, muitos muçulmanos buscam jejuar nesse dia devido à sua grande recompensa espiritual. Além disso, os muçulmanos são encorajados a jejuar no dia de Ashura em conjunto com o dia anterior ou posterior, de modo a distinguir o jejum muçulmano do jejum judeu, que tradicionalmente é feito apenas no décimo dia de Muharram.
O Jejum de Ashura entre os Sunitas e Xiitas
Embora o jejum de Ashura seja amplamente praticado por muçulmanos de ambas as seitas, a maneira como este dia é observado pode variar significativamente entre sunitas e xiitas. Para os xiitas, Ashura é muito mais do que um simples jejum. Este dia é marcado por uma série de rituais de luto, incluindo a leitura de poemas de lamentação, encenações teatrais sobre a batalha de Karbala e até procissões de lamento, nas quais os participantes expressam sua dor pela morte de Husayn e sua luta pela justiça.
Em contrapartida, os muçulmanos sunitas focam mais no aspecto de jejum e reflexão. Embora não participem de rituais de luto ou procissões, eles ainda consideram o jejum de Ashura uma forma de se aproximar de Allah e de expiar os pecados.
Ashura: Além do Jejum
Embora o jejum de Ashura seja uma das práticas centrais associadas a este dia, não é o único ato de devoção realizado pelos muçulmanos. O Alcorão nos ensina que a intenção é o que torna um ato de adoração verdadeiramente significativo. Portanto, muitos muçulmanos também utilizam o dia de Ashura para fazer orações extras, dar caridade aos necessitados e se envolver em atos de bondade e generosidade.
Um aspecto importante associado a Ashura é a caridade. Em algumas tradições, especialmente entre os xiitas, é costume oferecer alimentos e ajuda aos necessitados nesse dia, como uma forma de compartilhar as bênçãos recebidas de Allah.
Conclusão
O jejum de Ashura e o mês de Muharram, como um todo, oferecem uma oportunidade para os muçulmanos refletirem sobre os temas da justiça, da luta contra a opressão, e da purificação espiritual. Seja como um meio de expiação pelos pecados, seja como uma ocasião para reviver e aprender com os eventos históricos que moldaram a fé islâmica, o jejum de Ashura continua a ser uma das práticas mais significativas no calendário muçulmano. Para os muçulmanos, é uma oportunidade de se aproximar de Allah, de refletir sobre os eventos da história e de renovar seu compromisso com os princípios de justiça, verdade e misericórdia.

